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Populações de aves diminuem mesmo em áreas intactas da Amazônia, aponta estudo

Área de floresta ao Norte de Manaus (AM) foi monitorada por mais de 35 anos. Aves que vivem próximo ao chão são as mais afetadas.



Populações de aves estão diminuindo mesmo em áreas da floresta amazônica que permanecem intactas, mais precisamente ao Norte de Manaus (AM). É o que aponta um monitoramento de mais de 35 anos feito por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

A redução na população de pássaros acontece principalmente com as aves que forrageiam no chão da floresta, ou seja, aquelas que vivem nas partes baixas da floresta e que se alimentam de insetos no solo. Os dados foram utilizados por cientistas americanos da Louisiana State University para produzir o estudo, feito na Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE) do Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais (PDBFF), do Inpa. “Achamos que o que está ocorrendo é uma erosão da biodiversidade, uma perda no número de espécies em um lugar onde nós esperaríamos que a biodiversidade pudesse ser mantida”, disse o professor do departamento de Recursos Naturais Renováveis da LSU, Philip Stouffer, que é o principal autor do artigo publicado da revista Ecology Letters. Em meados de 2008, ao longo deste monitoramento, Stouffer e seus alunos notaram que algumas espécies de aves que eram abundantes quando o projeto começou, em 1980, estavam desaparecendo. Dessa observação surgiu o plano de pesquisa para coletar dados atualizados para serem comparados com os dados levantados de 1980-1984. Foram analisados dados coletados ao longo de 35 anos em 55 localidades diferentes.


O professor Stephen Midway, do departamento de Oceanografia e Ciências de Sistemas Costeiros da LSU, também auxiliou na pesquisa. Ele afirma que o padrão parece estar ligado a eventos causados por mudanças climáticas globais, "que estão afetando até mesmo este lugar praticamente intocado".

Quais são as aves que estão sumindo?


O uirapuru-verdadeiro possui um dos cantos mais icônicos da floresta. — Foto: Anselmo D’Affonseca/Inpa

Em geral, segundo o estudo, as aves que mais diminuíram estão associadas ao solo da floresta, onde buscam artrópodes, principalmente insetos. Entretanto, há algumas diferenças que fazem algumas espécies serem "vencedoras ou perdedoras" na luta pela vida na floresta.

Por exemplo, Myrmornis torquata, o pinto-do-mato-carijó, é uma das espécies cuja abundância declinou desde 1980. Essa ave é especialista em buscar alimento sob folhas secas, na serapilheira da floresta.

O uirapuru-verdadeiro (Cyphorhinus arada), outra ave em declínio, também é raramente avistada, mas que possui um dos cantos mais icônicos da floresta amazônica.

Espécies 'vencedoras' na região

Papa-formiga-de-topete é uma das espécies que estão 'vencendo' na região. — Foto: Philip Stouffer/LSU/Divulgação



Por outro lado, o papa-formiga-de-topete (Pithys albifrons) não está em declínio, e pode até ser considerado comum nas áreas em que o estudo foi feito. Sua estratégia de forrageio, ou alimentação, pode ser a chave para sua resiliência.

O papa-formiga-de-topete segue formigas de correição, ou seja, exércitos de formiga que se deslocam pelo solo da floresta predando tudo o que encontram pela frente.

Os cientistas também descobriram que as aves frugívoras, ou seja, aquelas que comem frutos, estão se tornando mais abundantes. O resultado pode sugerir que aves onívoras, com uma dieta mais variada, podem ser mais flexíveis, e assim conseguem ajustar seus hábitos conforme as mudanças ambientais.

Distúrbios humanos indiretos

Para o ornitólogo e pesquisador do Inpa, Mario Cohn-Haft, as mudanças nas populações de aves estão associadas a distúrbios humanos indiretos e podem ter várias implicações.

Cohn-Haft aponta que as espécies que diminuíram dentro da mata intacta são justamente as espécies mais sensíveis a qualquer distúrbio que afete a mata primária.

“Que essas espécies sensíveis a impactos humanos estejam diminuindo onde nenhum impacto na floresta foi percebido é um alerta de que o alcance da interferência humana é muito maior que imaginávamos, chegando até as espécies que vivem em mata fechada”, alertou, por meio de assessoria.



FONTE: G1