• Redação Portal Povo

Os vírus, o solo e a vida no planeta azul


O homem aumentou a velocidade erosiva dos solos em cerca de 2,5 vezes, tendo destruído já mais de 2 mil milhões de hectares de terra arável.


Cerca de ¾ da superfície do planeta é preenchido por um assombroso espelho de água. Todavia, será eventualmente a determinante singularidade do restante ¼ que justifica a denominação de Terra. Um “pequeno” percentil onde o solo emerso, funcionando como pele do planeta, se revela preponderante para a vida. Não obstante ser a terra firme o habitat do ser humano, nesse espaço, 28% são solos demasiado secos, 23% possuem problemas químicos, 22% são incipientes, 10% são demasiado húmidos, 6% são ocupados por permafrost, restando uns singelos 11% cultiváveis, ocupados pelo homem.


Definindo o delgado espaço que constitui a camada superior da crusta terrestre, formado por partículas minerais, água, ar, matéria orgânica e organismos vivos, o solo, aloja a maior parte da biosfera. Atua como interface entre o planeta, a atmosfera e a hidrosfera, participando ativamente nos processos ecológicos vitais para todos os seres vivos.


O mecanismo tectónico da crusta, agentes meteorológicos, o Homem e os restantes seres vivos, influem determinantemente no aumento ou diminuição da fertilidade dos solos. E, à medida que a população mundial aumenta, a % de solo cultivável diminui avassaladoramente. Estimando-se que nos próximos 30 anos, a população humana seja superior a 9 biliões de indivíduos, a necessidade de produção de bens alimentares crescerá exponencialmente.


Uma problemática que implica considerar que, a velocidade média de formação de 1 cm de camada superficial da crusta terrestre demora de 100 a 400 anos, podendo levar mais de 3.000 anos a formar-se um solo com produtividade dita normal.


Os microrganismos constituem, a primária e maior massa de matéria viva do planeta

O solo sustenta 99% da produção de biomassa para alimentação humana e animal, produção de madeira e outras fibras, etc; é um regulador ambiental, pois intervém nos ciclos hidrológico e biogeoquímico, como acumulador, filtro e transformador; alberga centenas de milhares de espécies por m², de micro a macrorganismos, representando assim uma importante reserva genética, uma reserva de biodiversidade.


E, é numa perspetiva de preservação deste habitat, deste banco de genes, que surge o conceito de agricultura sustentável, intervindo no solo através da promoção e proteção da flora, enriquecendo-o naturalmente com a formação de biofilmes e associações simbióticas com vírus, protozoários, micorrizas (cogumelo, p.e.), entre outras.


A microfauna do solo tem seres de diâmetro inferior a 0,16 mm


Um conjunto de microrganismos, como fungos, bactérias, protozoários e vírus, habitam os solos, exercendo determinante função na manutenção da biodiversidade, na ciclagem de nutrientes e na produção vegetal. O solo, como meio para o crescimento de microrganismos, é um ambiente muito heterogéneo, descontínuo e estruturado (argila, húmus e complexos organo-minerais) formando unidades cujos tamanhos variam de <0.2 μm a >2 mm de diâmetro. Esta descontinuidade e variabilidade no tamanho das partículas, dos agregados do solo, possibilitam que seja composto por inúmeras pequenas comunidades, cada uma circunscrita no seu próprio ambiente, num micro-habitat.



Cada grama de solo contém entre 108 e 1012 microrganismos, sendo que os vírus constituem cerca de 103 em zonas desérticas da Arábia Saudita, e 109 nas florestas do Leste dos EUA.


Presentes no solo, favorecidos pelas elevadas concentrações de matéria orgânica, assim como na rizosfera, os microrganismos heterotróficos, desempenham função fundamental nos ciclos de carbono e nutrientes, na vitalidade das plantas, contribuindo para uma agricultura de âmbito sustentável. Melhorar a qualidade dos solos contempla assim, quer a presença de macronutrientes (como P, N, K, Fe), quer o controlo da utilização de fertilizantes químicos, acidificantes dos solos, que danificam a biodiversidade.


Anualmente, cerca de 30% da produção agrícola é afetada por doenças induzidas por pragas ou microrganismos patogénicos, dizimando culturas inteiras. O “biocontrolo” das culturas representa uma ação mitigadora, utilizando microrganismos benéficos para impedir a ação nefasta de outros agentes patogénicos, p.e. com as bactérias Paenibacillus, cuja capacidade de formar biofilme nas sementes do trigo, lhes confere resistência contra invasões de outros fungos, como o Fusarium graminearum.


Microrganismos são parte integrante dos ecossistemas


A especial habilidade dos vírus em interagir com o material genético do hospedeiro, dificulta o seu extermínio, todavia eles são microrganismos eficazes no controle biológico de ervas daninhas e insetos. Podem influenciar o bom funcionamento do organismo humano (p.e. certas bactérias na microbiota intestinal - Escherichia coli), e possibilitam a melhoria das qualidades físicas, químicas e biológicas dos solos, inferindo diretamente na sua capacidade produtiva.


Os microrganismos habitantes do solo, consoante as suas importantes funcionalidades, são determinantes para a atividade agrícola, com papel ativo na degradação de compostos orgânicos, e inclusive na recuperação de recursos hídricos e edáficos, contaminados por agentes químicos.


Concomitantemente com os seus hospedeiros, os vírus evoluem. O planeta nasceu há cerca de 4.6 giga anos, e na morosa escala temporal que pautou a oxigenação da Terra, potenciando progressivamente o aparecimento das mais diversas formas de vida, surgiram, há aproximadamente 3.8 biliões de anos, as proto bactérias (as cianobactérias há 2.5 biliões de anos), e há uns escassos 200 mil anos, a espécie Homo sapiens.


Os microrganismos constituem assim, a primária e maior massa de matéria viva do planeta, um mecanismo gerador de vida, considerando que realizam processos químicos imprescindíveis para outros organismos, pelo que, na sua ausência, outras formas de vida não teriam surgido ou não se manteriam.



FONTE: tempo.pt