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Ingá e cultura

Impressões de uma alemã do encontro com o povo Huni Kuni

No meio da floresta amazônica acreana, vivem os povos indígenas Huni Kuin. De Belo Horizonte, embarquei em uma viagem de para conhecê-los na selva. O barco viajou pelo rio sinuoso em alta velocidade ao longo da densa floresta tropical. Foi um longo caminho para chegar até lá, mas logo o destino é alcançado.

Presente de boas vindas


Ao chegar à aldeia, imediatamente fui iniciada no ritual de pintura corporal. Uma moradora me pintou o rosto e os braços com a cor preta extraída do jenipapo. “Essa pintura serve como proteção energética”, explicou. “São desenhos que recebemos durante nossos rituais espirituais.”


Vida cotidiana na aldeia


A vida é simples. Sem internet, um sistema solar recém-instalado fornece eletricidade ao centro da aldeia por algumas horas durante a noite. Para tomar banho, nós vamos no rio. Há muito trabalho. Grandes chaleiras fumegantes de alumínio chiam sobre poços de fogo abertos. As mulheres preparam ansiosamente as refeições diárias, que consistem de muita carne e peixe fresco. Para mim, vegetariana, há arroz, feijão, ovos, milho, mandioca e banana. É delicioso.


Casas de madeira simples, mas robustas, alinham-se na aldeia. As motosserras gritam alto, porque os homens cortam as palmeiras “urikuri” na floresta, cujas folhas eles usam para construir os telhados. As mulheres e meninas cuidam da produção de seu artesanato tradicional. Elas habilmente fiam as minúsculas contas de miçanga e, assim, criam joias mais coloridas com desenhos sagrados. Outras trançam cestos e esteiras de folhas de palmeira “urikuri” ou tecem sacos e jaquetas de lã.


Muita música, alegria e crianças felizes


Sempre que há tempo, os violões são tocados, os tambores são batidos com força e canções poderosas de cura são cantadas, rituais diários por meio dos quais o povo huni kuin expressa sua espiritualidade e alegria de viver. As crianças brincam e correm soltas. Sua curiosidade e carinho naturais me emocionaram.


Na floresta


Fui à floresta com o pajé. Ele recolhia folhas das plantas para os remédios do povo. “A floresta é a nossa farmácia”, disse. “Aqui encontramos plantas contra todo tipo de sofrimento, como queimaduras, queda de cabelo, problemas de gravidez e até ciúmes.”


De repente desapareceu e voltou pouco tempo depois com uma fruta alongada. Ele me ofereceu sua carne branca e fofa. Tem um sabor agradavelmente doce. “O nome da fruta é ingá”, revelou. “Como meu nome”, respondi. Nós dois tivemos que rir da situação. Ao mesmo tempo, porém, ele ficou sério: “Tentamos ficar perto da natureza porque ela representa nosso deus. Lutamos todos os dias para fortalecer nossa cultura, a fim de proteger a nós mesmos, à floresta e à natureza.”


Uma circunstância que está se tornando cada vez mais importante durante este período de pandemia sombrio.


FONTE: OTEMPO