• Redação Portal Povo

A suspeita recai sobre Mantega

A delação de Palocci começa a mostrar quem lucrou com a bancarrota do Brasil


Os ex-ministros Guido Mantega e Antonio Palocci — Foto: Arte/G1


Em 31 de agosto de 2011, o Banco Central reduziu a taxa Selic de 12,5% para 12% ao ano. O mercado financeiro levou um susto. No mês anterior, a taxa subira de 12,25% para 12,5% e esperava-se nova alta. No máximo, manutenção. O “cavalo de pau” despertou uma onda de críticas à gestão de Alexandre Tombini no BC. Foi uma das principais causas do descalabro econômico no governo Dilma Rousseff. A inflação começou a sair do controle, mas só em 2013 o juro voltou a subir.


Naquele mesmo ano de 2011, o fundo Bintang, que apostava apenas na variação da taxa de juro, registrou um desempenho espetacular: alta de 402%, ante uma média de 25% no mercado. Entre julho e setembro, o patrimônio do fundo saltou de R$ 20 milhões para R$ 38 milhões. Sob administração do banco BTG Pactual, o fundo tinha único cotista: o próprio gestor do fundo, ex-tesoureiro do banco Multiplic, credenciado regularmente no mercado financeiro.


A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) chegou a investigar se o Bintang – estrela, em indonésio – se beneficiara de informação privilegiada para obter seu resultado estelar. Encerrou o caso sem nenhuma conclusão. Pois ontem, a Operação Estrela Cadente, da Polícia Federal, revelou uma denúncia há anos comentada no mercado financeiro, que consta de um dos 84 anexos da delação do ex-ministro petista Antonio Palocci.


De acordo com Palocci, a estrela que beneficiava o Bintang não era a sorte. Era a estrela vermelha do Partido dos Trabalhadores (PT). O fundo, segundo Palocci, se beneficiava das informações que o então ministro da Fazenda, Guido Mantega, passava ao dono do BTG, o banqueiro André Esteves. Em troca, prossegue a versão de Palocci, Esteves doou R$ 9,5 milhões para a campanha de reeleição de Dilma e repassava 10% do lucro obtido no fundo ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


O BTG nega que tivesse qualquer papel na gestão do fundo. Quem tomava as decisões sobre as apostas, afirma nota emitida pelo banco, era seu gestor. Tanto Esteves quanto Mantega são personagens recorrentes nas investigações da corrupção nos governos petistas. Esteves chegou a ficar um mês preso depois da delação do ex-senador Delcídio Amaral (o processo foi depois arquivado). Mantega foi citado na delação do empresário Joesley Batista como administrador da conta corrente de propinas que a empresa mantinha com o PT.


A Estrela Cadente investiga o período em que o Bintang funcionou, entre 2010 e 2013, quando o BC passou pelas gestões Tombini e Henrique Meirelles. Se comprovado o uso de informação privilegiada – e, de acordo com as informações disponíveis, Palocci apresentou provas do que afirmou –, será uma mancha sem paralelo numa instituição de reputação profissional sólida, cuja imagem foi até agora poupada na sucessão de escândalos dos últimos anos.


Trata-se de uma modalidade de corrupção altamente sofisticada, de comprovação difícil, que levaria as estripulias petistas a um patamar inédito. Não que ela tenha sido inventada pelo PT. O mercado financeiro é repleto de histórias de manipulação em várias gestões do BC, desde pelo menos os anos 1990. Nenhuma, porém, que envolvesse o próprio ministro da Fazenda, num caso tão flagrantemente suspeito.


A história também revela o valor da delação de Palocci, desprezada pelo Ministério Público na Operação Lava Jato sob o argumento de não conter novidades. Palocci só pôde fazer seu acordo com a PF depois de uma decisão controversa do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou os federais a também fechar delações. Foi o personagem mais alto da cúpula do PT a romper a omertà, o código de honra mafioso até hoje leva outros a negar as provas reiteradas da corrupção petista.


Palocci era do grupo mais seleto de comando no PT. Conhece profundamente as estripulias do partido. É verdade que pode ter mentido para fechar seu acordo. Cabe examinar as provas apresentadas por ele e acompanhar as investigações. Um fato, contudo, já fica claro. Se a inflexão da política econômica no governo Dilma foi motivada por equívocos ideológicos que levaram o país à bancarrota, isso não impediu muita gente de ganhar dinheiro com o descalabro.


fonte G1